segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A triste sina de Iracema (realidade agreste)


Nunca olhei nada além de mim mesmo. A depressão nos torna egoista... ou é o egoismo que nos torna depressivos? Não sei....
Aqui segue um conto sobre a realidade que me rodeia e consegui enchergar enquanto pensava no meu suicídio:
I parte
Era fim de inverno, época esperada com bastante anseio na região agreste baiano. Foi um bom ano para as plantações de milho, feijão e batata. As espigas cresceram as flores não cairam e as vegens não secaram antes de amadurecer. As crianças iriam para a escola de barriga cheia dessa vez.

Os povoados do distrito de  Orolândia estavam radiando de felicidade assim como o Sol que secava as vagens de feijão no terreiro das casas. Reunidos, todos da familia participavam na hora de bater e debulhar o feijão enquanto proseavam e cantavam de tamanha felicidade. Nas roças de milho alguns não tiveram sorte, plantaram tarde demais, os sabugos sevririam para alimentar o gado quando a paisavem voltasse ao cinza habitual.

Porém, no meio de tanta fartura estava Dona Iracema. Viuva aos 35 anos, aos 60, cinco dos seus filhos já haviam seguido suas vidas na direção que o vento soprara.(Nem sempre favorável.) Só lhe restara Nilton o filho caçula. Esse, porém, para o pesar de Iracema faleceu três meses atrás. O menino adoeceu, e logo correram para a maternidade de Orolândia. O doutor examinou, prescreveu alguns medicamentos e o mandou de volta. Morreu um dia depois, não houve nem tempo para chamar pai Crispim. Só o que Iracema pôde fazer foi rezar para que sua alma seguisse o caminho certo e descansasse em paz.

Ela não tinha terreno para plantar e mesmo se tivesse do que adiantaria se não tinha um centavo para comprar as sementes? E se ela tivesse as sementes, do que adiantaria se não tinha quem  lhe ajudasse a lavrar o solo? Ah, mas não duvide, na hora da colheita muitos seriam os voluntários!

Ainda lhe restava algumas provisões de quando vendeu uma porção de cobre que tinha conseguido juntar procurando meio ao lixo dos habitantes da cidade. Mas neste maldito dia o céu resolveu desabar e sua lenha estava molhada, seria impossível cozinhar! Enquanto varria a casa, pensando no que poderia fazer, dois jovens bateram na sua porta. Ela abriu intrigada, imaginando o que rapazes bonitos vestidos para ir num casório pretendiam naquele povoado afastado, naquela hora do dia e ainda mais com o pé d'água que estava caindo.

Logo um dos rapazes apunhou uma bíblia e rezou que o reino dos céus tem-se aproximado, os maus serão julgados e os justos herdarão a Terra, vivendo em  pax e super abundância... Para Iracema que não foi à escola, só sabia escrever seu nome e nunca foi muito além de Ponto Alto e Tanquinho, quase nada fez sentido.

Tarde do dia com um aperto no peito maior do que a dor no estômago olhou para o folheto que os jovens haviam deixado e lembrou-se das suas palavras --- Hoje à noite realizaremos uma reunião especial, e o descurso falará sobre a importância de nos ajuntarmos no tempo do fim e as bênçãos que o reino justo de Deus trará... Os vizinhos haviam-lhe negado comida e não tinha com quem dividir sua dor.(sentimento que ela mal sabia nomear) Então resolveu ir em busca do "alimento espiritual" prometido com base na bíblia pelos rapazes.
Ao sair de casa um besouro passou zumbindo pelos ouvidos, fazendo-a arrepiar-se até o último fio de cabelo.....
continua ( sé é que alguém teve coragem e paciência de ler até aqui! haha)

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