terça-feira, 15 de setembro de 2009

A triste sina de Iracema - Parte II

 Parte II
Ao sair de casa um besouro passou zumbindo pelos ouvidos, fazendo-a arrepiar-se até o último fio de cabelo.....o céu estava negro como se fosse noite, a ventania era forte e não demoraria chover novamente. Iracema voltou ao seu casebre e saiu munida apenas de um guarda chuva e um cajado ( que ela teimava em dizer que era apenas uma vara para espantar os animais no caminho) Ela teria que caminhar 5 Km para chegar à igreja enfrentando frio, chuva com ventania, estrada encharcada e a solidão como sua amiga intima.

Para não desanimar Iracema imaginava uma igreja bastante iluminada, todos os irmãos sorrindo e bem vestidos como os "anjinhos" como ela passou a chamá-los. Imaginava que todos iam lhe acolher bem, o calor das almas bondosas lhe aqueceriam, teria uma nova família e o amor de servir a Deus preecheria o vazio que a vida caprichou em esculpir dentro de si. Assim seguiu o caminho penoso entre cores vibrantes e luz acalentadora.

Ao chegar à rodovia que circundava a cidade parou um pouco para relembrar a localização da igreja. A dor na coluna e as varizes inchadas não importavam mais... Ela estava próxima do livramento do seu fardo. Era um dia comum, até monótono se você não considerar a chuva que estava caindo, tudo era familiar, não havia sinal nenhum do que viria a acontecer... Iracema segurando o guarda chuva apertou o cajado na outra mão e encaminhou-se para o encostamento da rodovia. Ainda teria que percorrer 200 metros pelo encostamento e depois atravesar a BR116 para adentrar na cidade...

Não sabemos ao certo o que aconteceu, os dados da autópsia não indicam atropelamento. --- Ela gozava de boa saúde para quem viveu nas suas condições, disse um interno ao ler o prontuário. Alguns acham que enquanto caminhava, um caminhão deve ter passado ao seu lado, provocando uma lufada de vento, derrubando-a no declive do encostamento... outros palpitam que ela simplesmente escorregou num seixo molhado e caiu... Como ninguém estava a sua procura o corpo só foi encontrado quatro dias após o incidente... os médicos dizem que sua morte foi lenta e sua dor imensurável. Acredito que apesar de  Iracema ter sido surrada como Jó enquanto viva, suas últimas palavras foram --- Deus cuide bem dos anjinhos que me trouxeram alento.

R.I.P Iracema

Fotografia: dona chiquinha - Mariana Vasconcelllos


3 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  2. Obrigado Dudu! esse foi o primeiro conto que escrevi! tb fiquei triste por ela ter morrido...ela morreu depois do posto sem ser o Texaco sabe...?

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  3. Obs. apaguei o comentário porque mencionava meu nome.

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